A PRIMAVERA DE BELO HORIZONTE --A CASA É A RUA
- Beatriz Goulart
- 5 de mai.
- 16 min de leitura

Como o desafio à arbitrariedade de um prefeito levou a ‘praia’ à capital de Minas Gerais, que abriga também a maior batalha de hip hop do país e viu os blocos de Carnaval explodirem.
Carnaval, tambores, praia. Tudo numá cidade sem carnaval, sem praia, sem graça, onde ao som do canhoneio uma guerra foi travada contra um prefeito. Espalharam-se exércitos de passistas saídos de todos os bairros, ocuparam ruas, esquinas e passeios, desafiando o traçado geométrico da cidade, enfrentando o trânsito com barricadas de abre-alas, colocando uma mesa na rua, fartando pessoas com bolo, café e um buquê de nuvens.
Em 2009, a paisagem urbana de Belo Horizonte viu grandes transformações na ocupação do espaço público.
Precursor, o movimento hip hop e baixo do Viaduto de Santa Teresa inspirou a explosão libertária da cidade, junto a coletivos como o Nossa Rua Tem um Rio, a Mesa de Tereza, Pisceagrama, Fica Ficus, Mata do Planalto, Praia da Estação e muitos blocos carnavalescos que surgiram sacudindo BH.
Naquele ano, um decreto do então prefeito Marcio Lacerda proibiu a realização de eventos na principal praça do centro, a da Estação. A resposta veio imediata de grupos ligados à cultura, que lançaram a ideia de se encontrar na praça para tomar sol e banho na fonte e discutir a questão. Quando Lacerda mandou desligar a água, os banhistas cotizaram um caminhão pipa. E assim foi inaugurada a Praia da Estação.
A arquiteta e urbanista Priscila Musa lembra que, sob a sombra de uma única árvore, “algumas pessoas olhavam para o horizonte sentadas em cangas de praia, com indumentária e apetrechos de mar mesmo: sunga, maiô, biquínis, boias coloridas, chapéus de praia, brinquedos de areia. Só que a areia da praia era de concreto grosso, o mar estava a muitos quilômetros dali e o horizonte era barrado pelos planos de prédios que circundam a praça. Uma grande faixa de pano proclamava com um desenho de guarda sol colorido: ocupe a cidade! Na faixa de concreto muitos moradores de rua se misturavam aos banhistas”
Desde aquela época, a praça foi se enchendo de música, dança e debates. E, como uma pedra na água, grupos chamaram outros para ocupar o asfalto. O ativista queer e educador Ed Marte acredita que essa força de associação e contestação já estava no ar, e a resposta ao decreto do prefeito aconteceu no coletivo, de forma horizontal.
Em fevereiro de 2010 surgiram os inaugurais blocos de rua - Peixoto e Tico Tico Serra Copo. Vieram ainda a Manjericão, que defende a descriminalização da maconha; o Todo Mundo Cabe no Mundo; Garotas Solteiras, que leva para a rua a temática LGBT; o Angola Janga, ligado às questões raciais; o Bloco da Praia, que chamou os moradores em situação de rua para participar do cortejo; e o Mamá na Vaca. O Entô Brilha, o Ladeira Abaixo, o Tchanzinho Zona Norte, o Baianas Ozadas e tantos outros.
Há os blocos itinerantes como os Filhos de Tcha Tcha, que saiu nas Ocupações dos sem teto, e o Pena de Pavão de Krishna, cortejo de foliões e ritmistas inspirados na cultura indiana, pintados de azul, ao som do afoxé que costuma desfilar em bairros periféricos, cantando a ecologia, refutando a especulação imobiliária, pedindo pela água viva correndo limpa.
EI POLÍCIA A PRAIA É UMA DELÍCIA
O ativista queer e educador Ed Marte conta que não esperava que a adesão fosse tão rápida e densa. “A ação de pessoas sobretudo ligadas aos movimentos sociais, do meio cultural como o Rafa Barros, a Milene Migliano, o Guto Borges, Priscila Musa, e tantas outras que já estavam envolvidas nas lutas da cidade teve muita repercussão”. Desde aquele janeiro de 2010 a praça foi se enchendo de música, dança e debates, onde foi sendo gestado o movimento Fora Lacerda.
A arquiteta e urbanista Priscila Musa relata que ao se aproximar da Praça percebeu que sob a sombra de uma única árvore, “algumas pessoas olhavam para o horizonte sentadas em cangas de praia e vestidas com uma indumentária que a presença do mar poderia requerer: sunga, maiôs, biquínis, boias coloridas, chapéus de praia, brinquedos de areia e, claro, o risco branco de filtro solar no rosto. Só que a areia da praia era de concreto grosso, o mar estava a muitos quilômetros dali e o horizonte era barrado pelos planos de prédios que circundam a praça, ... Uma grande faixa de pano proclamava com um desenho de guarda sol colorido: ocupe a cidade! Na faixa de concreto muitos moradores de rua se misturavam aos banhistas.”
Como uma pedra na água, grupos chamaram outros para ocupar o asfalto. Sob as ruas os rios foram desterrados pelo poder da arte e da performance, outros cantaram e duelaram sob o viaduto de Santa Tereza, também nas praças sob árvores centenárias, um grupo de defesa das árvores urbanas, bradou por elas. No centrão e em bairros periféricos, blocos ocuparam com festa as Ocupações dos sem teto e sem terra, terreiros de orixás perseguidos, outros se moveram para os arredores da cidade, pediram pela água contra os riscos e danos da mineração e a sanha das edificações em locais de preservação de nascentes. Foi uma tomada da urbes, um desejo de polis, pés nas ruas, todas elas, calçadas e descalças, avenidas lotadas, vielas sem esgoto, ruas sobre rios, minério sobretudo. Como no poema de Murilo Mendes os belorizontinos cantaram ‘Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo .. Não desprezo nada que tenha visto .. Desloco as consciências, a rua estala com meus passos ...”
Ed Marte acredita que essa força de associação e contestação já estava no ar e a resposta a esse veto aconteceu no coletivo, de forma horizontal. Em fevereiro surgiram os inaugurais blocos de rua - Peixoto e Tico Tico Serra Copo. Cada qual trouxe seu estandarte e suas questões. E ainda o Manjericão, bloco que defende a descriminalização da maconha, o Todo mundo cabe no mundo, o Garotas Solteiras que trazem para a rua a temática lgbt, o Angola janga ligado às questões raciais, o Bloco da Praia que chamou os moradores em situação de rua para participar do cortejo, o Mamá na Vaca, o Então brilha, Ladeira Abaixo, Tchanzinho Zona Norte, Baianas ozadas e tantos outros.
Há os blocos itinerantes como os Filhos de tcha tcha que saiu nas Ocupações e o Pena de Pavão de Krishna cortejo de foliões e ritmistas inspirados na cultura indiana, pintados de azul, ao som do afoxé que costuma desfilar em bairros periféricos, cantando a ecologia, refutando a especulação imobiliária, pedindo pela água viva correndo limpa.
Priscila Musa costura os eventos políticos – “Foram deitadas no cimento da Praia da Estação que muitas pessoas olharam nos olhos dos moradores em situação de rua. Foi no movimento Fora lacerda que os moradores da Ocupação Dandara se juntaram aos do bairro Santa Lúcia em uma caminhada contra as arbitrariedades do prefeito. Foi pulando no carnaval de rua que alguns moradores da zona centro-sul entraram dentro da comunidade, conheceram uma ocupação urbana, pisaram em um campo de várzea.” E relata outras misturas – união de historiador com integrante de torcida, cineasta com morador de Ocupação, para se defenderem das bombas que a polícia atirava. “Por certo o encontro de uma heterogeneidade de pessoas e grupos, de uma multiplicidade de formas de se colocar no mundo, de uma pluralidade de motivações, objetivos e de desejos não aconteceram, e acontecem, necessariamente de forma pacífica, foram, e são, permeados por desentendimentos e disputas. Algumas ações dos movimentos inventaram política e, afetivamente, outros modos de viver conjuntamente, uns com os outros, nos heterogêneos espaços da cidade ...”.
Duelo de MCs sob o Viaduto
O jornalista, MC e produtor Pedro Valentim, PDR, um dos criadores do Família de Rua, um grupo formado inicialmente por amigos que se dedica a viver as manifestações da cultura urbana, sobretudo o hip hop, comenta sobre o trânsito entre os movimentos da rua e os coletivos de projetos culturais – “a gente já esteve por vários momentos junto das ocupações fazendo Duelo de Mcs, emprestando equipamento ou indo pro pau. Já fizemos ações na Ocupação da Mata do Isidoro, Tina Martins, atividades nas Ocupações do Barreiro, assim como já precisamos contar com pessoas para fortalecer nossa luta. A rua tem uma dinâmica própria, a gente vai aprendendo a lidar com isso e adquirindo uma malandragem. Tem horas que um cara doido de cachaça pode atrapalhar o que estamos fazendo e temos que ter jogo de cintura, não vamos expulsá-lo, mas negociar o momento de cada um, vamos criar um jeito de relacionar, o que não é fácil.” Ou seja, a orientação é não cobrar entrada, não revistar as pessoas, manter o espaço sem catracas sem apelar necessariamente para a polícia na resolução de conflitos. O Duelo é uma zona autônoma de exercício de cidadania e de experiência da cidade.
Debaixo do Viaduto de Santa Tereza, há 10 anos, além do Duelo que arrola a música, a dança e as artes visuais, há o projeto Família de Rua Game of Skate que disputa manobras no chão. PDR explica que o Free Style, a rima feita de improviso a partir de batidas eletrônicas é forte, mas o encontro vai além, reúne manifestações como o grafite, os DJs, as rodas de danças, além das batalhas de mestres improvisadas com seu júri e público cativos. O ponto de confluência desse com os outros movimentos é a pauta política e a resistência, a luta pelo direito à cidade.
Historicamente o Duelo também começou na Praça da Estação, a idéia era fazer uma roda em frente ao Museu de Artes e Ofícios pensando que aquele lugar é estratégico, com muitos ônibus que vêm de todas as periferias da grande BH, local da estação central do metrô e onde chega um trem de Vitória todas as noites. Mas desde o primeiro dia, eles foram levados para o outro lado pela Guarda Municipal, pois não sabiam que precisavam de licença. Começaram a fazer o duelo na calçada do Miguilim Cultural, que era um espaço de referência para crianças e adolescentes em situação de rua e hoje é o Centro de Referência da Juventude. Em um dia chuvoso, foram abrigar-se sob o viaduto e lá permaneceram, a princípio às sextas-feiras à noite, agora aos domingos à tarde.
O Duelo de MCs é um projeto independente, sem financiamentos que ameacem liberdade e foram surgindo outras demandas como documentário, discos, um duelo nacional para ajudar a pagar as contas.
Dessa forma, a partir de 2012, foi feito um projeto pela Família de Rua para realizar a maior batalha do Brasil. Com os vídeos que eles realizavam, desde o início, divulgando os encontros, os MCs foram ficando conhecidos por meio da internet e as pessoas de outros estados puderam acompanhar os duelos. Alguns lugares como Rio, São Paulo e Salvador já faziam batalhas, outros foram surgindo, por exemplo, Brasília e Recife onde os organizadores se declararam influenciados pela Família de Rua. A primeira edição nacional teve um processo seletivo que arrolou 16 estados, cerca de 2000 MCs participantes, de mais de 60 cidades e na Batalha final, o Viaduto de Santa Tereza recebeu durante a festa, que durou dois dias, um público de mais 30.000 pessoas.
Mas a complexidade do local persistia por conta do consumo e venda de drogas e um clássico desse espaço é a marcação de território, o pixo. Em 2012 PDR tentou desenvolver junto a PM um projeto de atuação de segurança preventiva que não funcionou. Então, junto a psicanalista Ludmilla Zago e sua parceira Joanna Ângelo Ladeira que na época compunham um conselho de rua, desenvolveram um espaço de escuta e reflexão chamado Real da Rua, aberto aos comerciantes, artistas, moradores, etc. Segundo Ludmilla, a idéia era mapearem os impasses vividos e procurar formas de construir juntos para seguir convivendo e criando. “Bacana é que o viaduto, outrora esquecido pelo poder público e que tem por vocação abrigar as expressões livres da cultura da cidade, voltou à cena, conectado com dançarinos, Mcs, pixadores, grafiteiros, djs, e pessoas de todos os cantos. Certa vez fizemos uma enquete, num Duelo para saber de onde era aquele público. As 120 pessoas pesquisadas vieram de 93 bairros da região metropolitana de Belo Horizonte, numa única noite!”
Em 2014 o viaduto amanheceu fechado para reforma sem nenhuma comunicação prévia, sem diálogo sobre prazos, etc., na gestão do Lacerda. Então a Família ocupou o viaduto em reforma com ajuda dos vizinhos e parceiros - a Real da rua, a Assembléia Popular Horizontal, a turma do Soul, a comunidade do skate, o Samba da Meia Noite, atores do Grupo de teatro Espanca, e chamaram a Praia da Estação. Ou seja, os MCs também são freqüentadores da Praia, e de outras manifestações que ocorrem no Viaduto e na Praça como o Duelo de Vogue. PDR afirma que “o viaduto é isso, a mistura de uma galera sisuda do Hip Hop com um monte de gente montada da cultura do Vogue, drags, travestis, celebrando juntos. Isso a rua nos ensinou”. E há os pequenos milagres, quando um morador em situação de rua se torna um MC no palco, se descobre artista. PDR conta a história de Chapolin que pediu para participar, foi duelando embora chegasse bêbado, quase caindo. Os DJs resolveram encarar e conversar com ele, pedir para não beber naquele dia e aquilo começou a fazer muito bem. Até que um dia ele sumiu. Uns disseram que havia morrido, que tinha sido preso, outros tentaram achá-lo sem resultado. Muito tempo depois, em 2012, a Família estava fazendo um show no SESC Palladium e viram o Chapolin na fila. Ele contou que queria ver os amigos, tinha saído da rua e estava trabalhando.
raízes do Peixoto e Cuequinha do Papai
Elisa Marques, uma das criadoras do Bloco do Peixoto, disse que seguiu um impulso alguns dias antes do carnaval de 2009. Junto ao marido, o antropólogo Nian Pissolati, resolveram fazer um bloquinho e chamar os amigos. Sua trajetória profissional já incluía ações de rua com experiências com o Pinhole (fotografia artesanal), projeção de vídeo - projeto chamado Muros e Fundos - onde o casal filmava, fotografava e projetava imagens da cidade nela mesma, criando sobreposições de tempos e ritmos com o objetivo de convidar as pessoas a pensar o espaço urbano, imprimindo sentimentos novos. Foram dezenas de videointervenções provocadoras, plenas de deslocamentos, suscitando estranhamentos. “Projetávamos imagens da zona norte, de um bairro periférico na Praça da Savassi (zona sul) e com isso lançávamos luz sobre contrastes sociais e também sobre a dicotomia entre o urbano e o rural, de temporalidades distintas. Capturamos algumas cenas no bairro S. Geraldo por ex. de carroceiros e projetamos na fachada de uma loja, numa vitrine. Tiveram algumas interações interessantes, mas a transformação maior foi na gente, no processo todo de percorrer a cidade” diz Elisa. E metodicamente o casal palmilhou vários bairros das 9 regionais dispostos a olhar, deixando as diversas cenas transcorrerem no tempo-espaço próprios, tomando a cidade, o macro e micro, como objeto.
Formada em comunicação social, Elisa buscou conhecer o traçado urbano na contramão do contexto cotidiano, subvertendo trajetos, errando por bairros desconhecidos, lançando seu corpo na busca de transgressões das formas de se estar na rua. Assim, chegou também nas ações de rua, no domínio da música e das artes, como no Soul da Praça Sete e Rap do Viaduto de Santa Tereza, na plasticidade da Mesa de Thereza, em performances e instalações recorrentes.
A idéia do carnaval foi inusitada com um retorno inesperado. Na época, não tinham as redes sociais como facebook então ela e Nian criaram um blog, fizeram convites no papel, com o desenho da baleia carimbado abaixo do nome do bloco, que se deu por causa da praça Floriano Peixoto, muito arborizada, num bairro com um ar de cidade menor. Nesse meio-tempo eles descobriram que outro grupo também estava criando um bloco, o Tico Tico Serra Copo. “Freqüentamos os blogues um do outro, marcamos um encontro, pois nós queríamos convidá-los para a nossa bateria, e, quando nos vimos descobrimos que éramos da mesma turma. Achei que fosse encontrar sambistas experientes”, conta Elisa.
Ela se emociona com a saída do Tico Tico que começou na rua Ramalhete, no bairro da Serra, a bateria trazia as partituras na mão, com percussão, alguns sopros e foram descendo a serra com o bloco empolgado. As ruazinhas foram enchendo, muitas pessoas já olhavam das sacadas, e aí veio a mangueirada de água. “Foi uma delícia, eu fiquei muito feliz de viver isso, uma prática doméstica, de quintal, acontecendo na rua e com todo o mundo! E fomos crescendo, fortes como uma massa, sentindo o poder diante dos carros, já com vontade de chamar mais pessoas. Andamos por ruas e becos, atravessamos lotes vagos, entramos numa agência bancária, fizemos confete da papelada e saímos festivamente. Quem mudou fomos nós, tomamos consciência da nossa potência a partir do carnaval, de uma capacidade de ação que é mobilizada todas as vezes que nos identificamos com uma causa pela cidade. Acho que o Peixoto foi um convite, o Tico Tico também, ao qual todo o mundo aderiu rapidamente porque a gente chamou, mas todos já estavam querendo.”
De lá pra cá os blocos fermentaram, nesse carnaval de 2018 foram cerca de 480 inscritos na Prefeitura. As baterias experimentaram um grande avanço musical, houve inicialmente uma organização e a criação de arranjos pela instrumentista Milagros Vazquez, além da presença do Guto Borges como regente. De lá para cá muitas outras baterias se formaram, muita gente se interessou por tocar um instrumento, aprender e criar músicas, colocar seu bloco na rua. O cortejo segue polifônico, misturando sentidos, na música, com letras satíricas, como os de outras décadas, denunciando e publicizando os desmandos políticos com humor, com a criatividade dos adereços, dos estandartes, com faixas, bonecos, fantasias combinadas, muitas variações temáticas e performáticas, alguns blocos itinerantes que lembram o projeto da Elisa, hoje arquiteta, pesquisadora dos muros e fundos, dobras urbanas que provocam deslocamentos em busca de experiências e novos conhecimentos a serem usados como interface na conversa sobre a cidade.
QUE COINCIDÊNCIA QUANDO NÃO TEM POLÍCIA NÃO TEM VIOLÊNCIA
Apesar da pujança do carnaval, foram vividas diversas situações de conflito entre blocos com a polícia e prefeitura. Nesse ano os Filhos de Tcha Tcha viveu um embate com policiais, que na dispersão usaram bombas de gás, tiros de borracha e spray de pimenta nos foliões. Elisa crê que ‘essa gestão não dá conta de lidar com as notas anárquicas, por exemplo, esse bloco estava nas ocupações Eliana Silva, Irmã Dorothy, Paulo Freire convidando as pessoas num jogo coletivo de desfrute, onde todos são convidados a participar. Ao longo desses anos vimos que a Prefeitura primeiro negou esse movimento, depois houve repressão, e por fim buscaram cooptar tentando enquadrar a gestão do carnaval na área do turismo, e a gente quer o carnaval sem interesses marqueteiros e que a interlocução seja na área da cultura. E, nesse processo, bobeou eles mandam a polícia, querem controlar o que não é para ser controlado.” Mesmo na Praia da Estação houve embates que a arquiteta credita ao modelo autoritário de gestão das cidades, prevendo o esvaziamento de ocupações e enquadrando a criatividades, para que as pessoas passem a viver nos seus espaços privados, em condomínios, shoppings, carros.
Ô Ô Ô Ô ... Os Comunistas estão chegando ... Estão chegando os Comunistas
Diante do arrebatamento do desfile do bloco Cuequinha do Papai Leandro Lopes escreveu na página Mapa da Folia: “... Não sou leitor de Deleuze, mas ontem lembrei de suas palavras : ‘não ser de esquerda é como um endereço postal. Parte-se primeiro de si próprio, depois vem a rua em que se está, depois a cidade, o país, os outros países e, assim, cada vez mais longe... E ser de esquerda é o contrário. É perceber... pelo mundo, depois, o continente ... depois a França, até chegarmos à rue de Bizerte e a mim. É um fenômeno de percepção’. Ontem foi lindo lembrar disso no meio da marchinha, do samba, de Gonzaguinha, Chico, da Tenda da Democracia, Lula livre, cuecas nas cabeças, fantasias, samba no pé, batuque em garrafa, … O Cuequinha do papai virou meu refúgio, espalhou minhas esperanças, me arrancou um sorriso tímido e me fez ver que a resistência vive ... percebendo o mundo a começar pelo outro”.
Segundo a historiadora Regina Magalhães, uma das criadoras do bloco, o Cuequinha surgiu em 2001, com amigos em torno de uma mesa, tocando garrafa com aliança, um banquinho, caixa de fósforo, cantando marchinhas antigas e muito samba. Começou no antigo bar Panorama, em um momento da cidade em que ‘carnaval incomodava, era um silêncio profundo’. Junto ao irmão e amigos começaram a se encontrar para um pré-carnavalexco – brincando com o sotaque carioca, sempre na terça-feira anterior ao feriado. Mais tarde eles se fixaram no bar Brasil 41, um casario antigo, tombado, no bairro Santa Efigênia. Cuequinha e Peixoto são co-irmãos e a bateria do primeiro é quem ajuda a abrir o coro do segundo, união que foi batizada como ‘Dá no coro’. Além disso ele é homenageado pelo Mamá na Vaca, que retrata uma das características marcantes do bloco: quando se canta o Alalaô, antes do ‘viemos do Egito’, a bateria pára e os foliões reproduzem um gesto com a cabeça e braços à moda das pintura egípcias, com o rosto virado e os braços enviesados.
Outra característica é a involução. Como eles ficam em volta de uma mesa, cheia de cerveja, tocando e cantando junto aos agregados, passantes, eles ameaçam sair, só que o fôlego é curto porque o que querem é voltar e ficar na mesa para cantar, como uma grande sala de visita na rua. Então eles inauguraram a evolução de meio quarteirão, para logo involuir e ‘voltar para si mesmos’. Regina explica que ‘normalmente a gente volta de costas, cantando hare krishna, recuando, e quando retornamos à mesa, cantamos o samba mais samba - ponto de macumba, Clara Nunes, Clementina, e tal”.
O bloco nasceu como um movimento de resistência, irreverente, e a partir de 2016 tornou-se temático. Já homenagearam Yemanjá, pois a saída coincidiu com o dia 2 de fevereiro, enfeitando as cuecas com conchinhas e adereços para a rainha. Em 2017, em razão do golpe, o tema foi ‘os comunistas estão chegando”, uma parodia com os Alquimistas, e o Cueca saiu todo de vermelho. No meio do agito eles tiveram momentos solenes cantando a Internacional em ritmo de samba e também em russo castiço. Neste ano, o bloco calhou de sair no dia 6 de fevereiro, aniversário de Bob Marley que foi laureado junto a questão da descriminalização do uso da maconha. Além disso, diante da iminente possibilidade de prisão do Lula eles fizeram uma faixa Lula Livre, que passeou por outros blocos.
Regina Magalhães também participa de outros projetos de rua, como o movimento Fica Fícus, de defesa e tratamento da árvores urbanas ao invés da pura supressão ou podas radicais para passar a fiação elétrica. “Precisamos aprender a conviver com o envelhecimento das árvores e o adoecimento delas, não é porque estão doentes que têm que ser suprimidas. As árvores guardam história, memória. Os fícus de BH, das avenidas Bernardo Monteiro e Barbacena foram plantados na década de 20, elas têm que ser reverenciadas, uma região urbanizada é outra ambiência. E o poder público não apresenta uma política de cuidado, preventiva”.
A MESA DE THEREZA
Concebido como um trabalho de artes plásticas, o café da rua ou a Mesa de Thereza funciona como um espaço de trocas, convivência e alteridade entre conhecidos e desconhecidos, aberto aos transeuntes. Começou na calçada em frente a Ong Undió, que Thereza dirige junto a Julia Portes, voltada para a prática das artes junto a crianças e jovens em situação de risco social. Situada no centro da cidade, perto do Mercado Central, a mesa é posta em frente a casa art decô onde Thereza passou a infância e o café começou no século passado.
Sobre a toalha branca, com xícaras coloridas e diversas, cheira longe o café fresco coado em filtro de pano que acompanha quitandas - broas, biscoitos e bolos. O ritual íntimo e familiar contrasta com o barulho da rua. Em torno desse projeto, refeito em várias edições, os vizinhos se achegam assim como trabalhadores, comerciantes, pessoas em situação de rua, curiosos com a casa virada do avesso, que vive fora e com todos o que era dentro e familiar.
De acordo com a jornalista Julia Guimarães que acompanha o projeto “em suas diferentes estações, a mesa colabora para ativar conversas, memórias de vizinhança e relações inesperadas entre os participantes. A simplicidade do dispositivo deixa-o a meio caminho entre os quadros de 'arte' e 'espaço vital' e isso parece ser também um elemento constituinte da proposta. O dispositivo colabora para gerar relações de cumplicidade entre os presentes e, com isso, o trabalho enfatiza, ainda que indiretamente, a importância das afeições na construção do comum.”
Esse projeto é também itinerante e é realizado em diferentes eventos de movimentos culturais e sociais da cidade, tais como ocupações habitacionais, atos do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, Terreiros, Comunidades Quilombolas, entre outros.
BEIJO NO SEU PRECONCEITO
A luta segue nas outras estações, com uma juventude que cria, reivindica, amadurece e potencializa a construção da liberdade, de forma transitiva, questionando a cidade pouco inclusiva, que privilegia relações mercadológicas, o uso do carro, tornando-se ela mesma uma cidade-mercadoria, cheia de espelhos, onde a alteridade é uma sombra no vidro.
“Eu sinto que existem mudanças, com relação, aos anos 80, quando não existia essa história de frequentar a rua. As pessoas tinham medo. Depois que eu comecei o trabalho de performance eu me sinto mais pertencente a cidade. A primeira vez que eu usei maiô foi na Praia da Estação.” Ed Marte.
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BELO HORIZONTE PARA TODOS
Ricardo Aleixo
O mais belo horizonte
desenhado com mestria:
para todos – não apenas
para uma minoria.
Belo porque necessário
como o sol de cada dia:
para todos (não só para
a podrida burguesia
que se apossa da cidade
e investe contra a alegria);
para todos – para quem
não abre mão da utopia.
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Este artigo foi originalmente publicado na Revista Bravo! em [Abril/2018]. O conteúdo faz parte do acervo de textos da autora e está sendo republicado aqui como registro de portfólio.




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