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LaÇos de Tinta

  • Foto do escritor: Beatriz Goulart
    Beatriz Goulart
  • 5 de mai.
  • 2 min de leitura

Exposição em São Paulo reúne obras de Cristiano Rennó e Patrícia Leite.

Por Beatriz Goulart


Tramas e obras diversas dos artistas mineiros serão reunidas na exposição Parques e Outros Pretextos, que abre no próximo dia 25, na Galeria Mendes Wood DM, em São Paulo. A mostra apresenta cada um separadamente e também uma sala comum com pinturas em bandejas e gamelas. Nesse dia, haverá ainda o lançamento do livro escrito por Rodrigo Moura, Olha Pro Céu, Meu Amor sobre a obra de Patrícia Leite.


Foto: Beatriz Goulart
Foto: Beatriz Goulart

Diante das obras, há muito o que se considerar. A ausência de cor nos bolos de fitas apresentados por Cristiano Rennó, por exemplo, poderia apontar para uma falta de perspectiva, sublinhando as perdas monumentais, a beira do abismo onde a cultura, os museus, a educação estão se (des)equilibrando. Existe sim uma iminência, um langor, uma bile frente ao obscurantismo. No entanto, há luz — a que não é de todo absorvida e reflete seu branco no preto pigmentando curvas e volumes do trabalho sinuoso e macio.


Também o contraste das paredes brancas e o tanto de vazio que o trabalho produz incitam ao contato, pois as fitas estão soltas e se dispõem a percorrer as salas da galeria. Daí a noção de pintura expandida, daí o convite ao mergulho, à cama de gato, ao desembaraço. Assim como no Museu da Pampulha, onde há anos Cristiano lançou sua Teia, e o espaço foi tomado pelas cores dos barbantes, talvez haja, hoje, o mesmo convite de desenrolar o novelo, essa prática de vida, algo oposto ao luto.


Na realização do trabalho o artista manipulou um fardo de tecido e foi se libertando do peso, da mortalha, cortando-o em tiras, dobrando suas pontas entrando e saindo da Fita de Moebius que a matemática inventou, e a arte e a psicanálise recriaram.


Além da questão gráfica — preto e branco no espaço — é no volume de preto que o trabalho se torna pictórico e adverso. Como no enigma da reviravolta, da fronteira, Cristiano brinca com a (des)orientação da luz: como o preto é ausência de luz, e nesse sentido ausência de cor, no fundo branco não se pode dizer que ele não seja cor, linha e massa perfazendo desenho e pintura na instalação.

Foto: Alexandre Pimenta
Foto: Alexandre Pimenta

As fitas no chão e as içadas na parede seguem a linha de outros trabalhos que o artista chama de Polimorfos — conjunto matérico instável. Há anos Cristiano vem tecendo essa teia seja com objetos, pilhas de tecidos, cordões, plásticos, sacos, fitas verticais, vestimentas indígenas, repetindo um fazer e desfazer, vestir e desordenar as formas sugeridas, convidando o público a entrar no trabalho geralmente realizado com cores. Até agora. Dessa vez o preto é a ousadia de se retirar quase tudo da cor, que é seu alfabeto. Subversões e sutilezas fazem do seu trabalho algo a ser seguido, como o fio que esconde o minotauro.

 
 
 

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