o próximo intuitivo
- Beatriz Goulart
- 30 de abr.
- 3 min de leitura
Considerado valor feminino, frequentemente associado à maternidade, a escuta intuitiva é também o meio de ouvir a voz de quem sofre violência – inclusive de gênero.
Intuição é conhecimento? Para Henri Bergson (1859-1941), sim. “A intuição está fundamentada na noção inicial que se tem sobre algo, que nasce da experiência sensorial, da apreensão imediata da realidade por coincidência com o objeto”, escreveu o filósofo francês.
Um exemplo bastante apreciado desse conhecimento é o da mãe que “escuta” o filho. Ela o faz intuitivamente, com o seu físico, aprimorando a escuta óssea, visceral. Poderosa e polissêmica, a mulher-mãe está aparelhada para ouvir as solicitações, atenta ao balbucio, ao gemido, discernindo a escuta do oco, da fome, do alimento percorrendo cavidades, a escuta seletiva do choro, da saciedade, da expulsão.
No entanto, se a mulher escolhe outra coisa que não ser mãe, ainda está sujeita a ser execrada como alguém que rejeita sua própria natureza. Que nega o papel ao que estava destinada.
Da intolerância de gênero e suas respectivas “naturezas” não escapam nem os homens: quem quer que busque outras possibilidades de se relacionar, ou apenas negue o papel social da tríade pai-mãe-filho, esteio político da demarcação de gêneros, é alvo de abuso e morte. Nesse mundo em que a visão binária do mundo persiste, há ainda muitos tabus a serem quebrados, sujeições a serem rompidas, histórias a serem reescritas.
Escuta, uma arte
O fato é que a escuta intuitiva não é valor exclusivo das mulheres – nem, consequentemente, algo que pertença à “natureza” de qualquer gênero. Matriz de conhecimento e “apreensão da realidade”, nas palavras de Bergson, ela encontra terreno fértil inclusive no campo artístico.

Um exemplo é a performance Rolezinho Oficiante, da mineira Marta Neves. Trata-se de uma missa queer dividida em sete partes, oficiada por ela junto com o artista Marc Davi: Saudação Inicial; Textos Sagrados; Meditatio; Orátio; Oferenda; Oração Centrante da Contemplatio Final; e Despedida.
Para montar o texto, centrado nos abusos contra mulheres, bissexuais e trans, Marta Neves mesclou suas palavras com textos de terceiros numa poderosa encenação autoral. Entre os autores usados, Hilda Hilst, Luiz Ruffato, Marcelino Freire e Nelson Rodrigues. Em Lectio Divina 1, uma das elegias de seus Textos Sagrados, conta a história de um hermafrodita de Santa Luzia, que foi registrado e criado como mulher, mas que luta pelo direito de usar um nome masculino, Luan.
Aos cinco anos, ele teve o órgão retirado cirurgicamente e, aos 18 anos, foi preso por falsidade ideológica ao mostrar a própria certidão de nascimento para policiais. Atualmente, Luan trabalha como pedreiro e vive com sua mulher e um filho. Sonha em constituir uma família formalmente: “Quero casar, registrar meu filho, trabalhar registrado para financiar um lote”.
Já na Lectio Divina 3, a história é contada pela mãe de uma pessoa que, na adolescência, trocou a identidade feminina pela masculina. “Troco os pronomes em alguns momentos”, diz a mãe. “Sofremos juntos durante o período de menstruação, apertamos todos os dias os seus seios em faixas e elásticos para não aparecer na roupa, compramos cuecas e falamos das meninas pelas quais se interessa.”
E, assim, as cantilenas vão revelando um misto de situações delicadas e terríveis, invisíveis até para quem aposta no transbordamento das fronteiras de gênero. São histórias que humanizam não só as causas, mas também seus protagonistas.
Silêncio, uma voz
Outro exemplo, diverso por contraste, é o de Nina Caetano. Dramaturga, atriz e professora, ela é autora da performance Espaço do Silêncio (2013), manifesto-denúncia contra o feminicídio já apresentado nas ruas de Belo Horizonte, São Paulo e Ouro Preto. Em um pano branco estendido no chão, ela pinta cruzes vermelhas, que funcionam como pequenas lápides de mulheres mortas – não raro por namorados e maridos, como informam histórias que ela coleta em jornais e exibe ao público.

Nesse ritual, Nina faz uma cruz vermelha também em sua boca, tornando-se ela mesma lápide. Desse modo, celebra no silêncio obstinado o direito de vociferar. “O silêncio, gosto dele ... para que as pessoas possam chegar às suas próprias questões. Busco me comunicar pelo olhar. O silêncio solicita a palavra... Procuro fazer a memória do crime e até, provavelmente, de sua impunidade e esquecimento”, escreve a artista.
Nos dois casos, trata-se de “ouvir” o que tem a dizer quem está à margem – e transformar isso em conhecimento num discurso que constrói com valores que não aplicam apenas à maternidade. Discurso político, mas fundamentalmente humano: atentos precisamos estar às solicitações de quem tem sua voz negada na sociedade.
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Este artigo foi originalmente publicado na Revista Bravo! em Agosto/2017. O conteúdo faz parte do acervo de textos da autora e está sendo republicado aqui como registro de portfólio.




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