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Poesia a dois

  • Foto do escritor: Beatriz Goulart
    Beatriz Goulart
  • 7 de mai.
  • 5 min de leitura

Dois poemas inéditos do livro “Como se fosse a Casa (uma Correspondência)”, de Ana Martins Marques e Eduardo Jorge


Os poemas integram o livro que será lançado no fim do mês na Flip, resultado de uma correspondência entre os poetas Eduardo Jorge e Ana Martins Marques, durante o curto período em que ela morou no apartamento dele no Edifício JK, em Belo Horizonte.



suíte

Uma noite,

se fumaça ou

máscara Diotima

um cigarro

sustenta o trânsito

em uma brasa —

uma noite a noite

é

e o ponto mais

escuro, quase,

segredo de fígado,

persiste em dúvida

a planta dos pés.

(Eduardo Jorge)

_________

Morar num mês

na memória de uma noite

apoiada num cigarro

ela tenta ver os números

no imenso relógio sobre o prédio em frente

cifras contra o céu da cidade

deste ângulo no entanto

ela não consegue ver as horas

que continuam correndo mesmo assim

aquilo afinal lhe lembra como certa vez

numa exposição do Leonilson

ela se aproximou de um quadro, para ler

mas não era escrita


Que sobre este prédio

pensado para o futuro

se instale um relógio

insistentemente presente

e sobre este relógio

um céu anacrônico

com suas estrelas

atrasadas

Ensinam algo

as estrelas

sobre a distância

algo sobre o pequeno atraso

a pequena demora

que é a leitura

(Ana Martins Marques)

_________

Abaixo, Ana Martins Marques e Eduardo Jorge contam a história, pessoal e literária, que resultou em Como se fosse a Casa (uma Correspondência)


ANTESSALA


AMM: Morei no apartamento do Eduardo por apenas um mês, no início de 2016. Ele estava morando fora do país, e eu precisava de um pouso provisório. Começamos trocando e-mails para acertar questões práticas, mas logo passamos a trocar poemas. Os textos acabaram quase todos girando em torno do que é, afinal, uma casa, dos dilemas entre partir ou ficar, sentimentos de deslocamento ou exílio, já que eu estava morando numa casa que não era minha, um apartamento que continha ainda rastros do antigo morador, e Eduardo estava (como ainda está) em viagem, morando num país estrangeiro. São, nesse aspecto, “poemas de circunstância”, mas acho que os textos acabaram se ampliando, sobretudo, me parece, a partir das respostas do Eduardo, que introduziram nesse diálogo um certo “sentimento do mundo”.


EJ: O poema se insinua para mim como uma forma estranha e doméstica. Meu primeiro livro, San Pedro (2004), por exemplo, coincidiu com a saída da casa familiar, quando, em Fortaleza, passei a morar em um prédio na orla chamado São Pedro. Não recordo se escrevi para sair de casa ou se saí de casa para escrever. Ainda em Fortaleza, no centro da cidade, preparei um conjunto de poemas com fotografias intitulado Caderno do Estudante de Luz, publicado pela Lumme, em 2008. Nesse período iniciei uma coleção de imagens de casas, das muitas pelas quais passei. Curiosamente, a casa se tornou um lugar de passagem, e o poema talvez tenha sido um lugar para organizar o conjunto de signos domésticos que tinha à mão. A palavra praticamente ganhou a concretude de uma escova de dentes ou dos talheres.


Em Belo Horizonte, o ciclo das imagens domésticas prosseguiu; ele se propaga, inclusive, num livro inédito: A Língua do Homem sem Braços (Prêmio Minas Gerais de Literatura, 2010). Parte dessas imagens foram formalizadas em A Casa Elástica (Minisséries), publicado em 2015 também pela Lumme. O livro condensa experiências de morada em Paris, Fortaleza e Belo Horizonte e passagens por outros países, em casas de amigos. Como sempre mudei bastante com a família — uma infância em onze casas –, recordo que a casa vazia era um espaço acústico onde adorava falar e ouvir a palavra se propagando pelos cômodos. Ao longo do tempo, com a experiência de leitor, a escrita se tornou também um modo de perder as teorias, de esquecer o que li e o que vivi. Escrever a quatro mãos, nesse sentido, parece outro modo de difundir as imagens domésticas e sair da intimidade enganosa que a palavra promete, pois ela estaria no meio do caminho se não fosse dividida.


VISITA


AMM: Quando a Maíra Nassif, editora da Relicário, perguntou se eu teria interesse em lançar alguma coisa pela editora, lembrei dessa correspondência com o Edu: recolhi os poemas e tentei dar aos textos um certo arranjo, próximo da ordem da troca das mensagens, mas não totalmente coincidente com ela. A partir desse primeiro arranjo dos textos, tanto o Edu quanto eu fizemos cortes, acréscimos, reescritas, alterações…

Tenho a impressão de que, fazendo esse livro, acabei mudando um pouquinho minha compreensão do que um livro pode ser: do mesmo modo que a casa que surge no livro é uma casa instável, aberta, atravessada por imagens de fora, acho que a própria ideia de livro se modificou para mim, no processo de escrita em dupla, de escuta das palavras do outro e dos barulhos das coisas ao redor.


EJ: Como se fosse a Casa (uma Correspondência) foi um modo de prosseguir a escrita a quatro mãos, de adensar o espaço doméstico com a presença de outra pessoa. Sempre me vem ao espírito a frase de João Guimarães Rosa, que cito de memória: visita lá em casa são três dias. Fiquei surpreso quando a Ana Martins Marques respondeu ao meu anúncio, no qual eu propunha aos amigos de Belo Horizonte o aluguel do apartamento no JK. Minha intimidade com a Ana, mesmo que eu a conhecesse pessoalmente, sempre foi mais como leitor, sobretudo pelo livro A Vida Submarina. Ao mesmo tempo, a cada nova mensagem da Ana, eu sentia uma amizade que surgia pela casa: pelas regras do condomínio, pela correspondência, pelos corredores do prédio, pelos hábitos sobrepostos, pelos relatos da visão da cidade…


RUA


AMM: Há muito em comum entre um livro e uma casa: ambos são lugares de guardar, ambos delimitam um território, ambos organizam, ainda que provisoriamente, as coisas e as forças do mundo. A casa é também, muito frequentemente, o lugar da escrita. Penso que, se o livro é como se fosse a casa (como indica o título, retirado de um poema do Eduardo), é porque a própria casa não é, para usar uma palavra do Herberto Helder, uma “casabsoluta”: ela é também uma quase casa, um lugar instável e provisório onde se tenta, desajeitadamente, morar. Fazer um livro é um jeito de arrumar a casa, mas ao mesmo tempo de abri-la (à visita, à leitura, ou seja, a novas desarrumações) e de sair à rua.


Optamos por acrescentar um subtítulo, “correspondência”, porque esses textos eram, a princípio, “endereçados”: eram textos com destinatário definido, que de alguma forma se respondiam, embora essas respostas nem sempre sejam diretas ou evidentes. No momento em que esses textos passam a compor um livro, no entanto, essa correspondência, antes a dois, passa a se destinar a todos, ou melhor, a qualquer um, a um qualquer leitor que topar com essas cartas agora sem destinatário certo, como sempre são os poemas.


EJ: A poesia é estranha: de um lado ela ativa a vida doméstica, de outro, ela a destitui, tornando-me/nos estrangeiro(s), inclusive do que foi vivido. Enfim, como disse um poeta que admiro, não é apenas a experiência que conta. Graças à Relicário, essa troca agora torna-se pública, e espero que os signos do vivido se percam com a própria existência do objeto livro. Mesmo passando por diversos endereços, amizades precisas, conversas interrompidas, encontros intrigantes, cada poema talvez mimetize um desses objetos que se encontra em um mercado de pulgas: ele tem um passado, mas é o novo uso que vai ser decisivo na casa daquele que o adquiriu.


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Como Se Fosse A Casa — Uma Correspondência, de Ana Martins Marques e Eduardo Jorge. Relicário, 48 págs., R$ 30. O lançamento será durante a Festa Literária Internacional de Paraty, na Casa Amado Saramago, em 29 de julho, às 19h; em São Paulo, no dia 12 de agosto, às 16h, na Tapera Taperá; em Belo Horizonte, ema 19 de agosto, na Livraria Quixote.


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Este artigo foi originalmente publicado na Revista Bravo! em Julho/2017. O conteúdo faz parte do acervo de textos da autora e está sendo republicado aqui como registro de portfólio. Você pode conferir a publicação original neste link.

 
 
 

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